domingo, 26 de fevereiro de 2023

Tempo e Memória

 Ontem mesmo passava pela rua em que cresci, e notava saudoso todas as transformações que ela sofrera ao longo desses vinte anos. Outros muros, cores diversas, as fachadas reformadas, novos ladrilhos, portões e calçadas; reconhecia todas as casas, e juro que podia dizer com precisão quais foram as mudanças pelas quais cada uma passou. Nossa memória é nosso refúgio.

Gozado é notar que meu espírito avaliava tudo aquilo com certa resistência - havia qualquer coisa de intimidador com toda aquela transformação. Como se a mudança material das edificações simbolizasse a impermanência e transitoriedade da própria existência - e junto a ela, uma espécie de reflexão jazia. Afinal, o que fiz durante todos esses anos?

Como se, estando eu lá atrás, na imagem que tinha da rua onde cresci, estaria resguardado das dores emaranhadas na imagem do agora.

Como se ao permanecer inalterada a fisicalidade de certo espaço nos sentíssemos mais próximos a quem éramos quando o frequentávamos...

Ah! Mas que loucura é se abrigar em memórias e desejar que na vida tudo permaneça o mesmo - se a todo segundo tudo é novo, tudo se altera, tudo se transforma...

Seria a negação da mudança, seja qual for, o grande dilema de nossas vidas?

Aceitar a morte como quem aceita a chuva - e fazer das lágrimas uma espécie de oração.


sábado, 21 de janeiro de 2023

 O aroma do vento é como uma lembrança

de liberdade.
E no germe de toda vida múltipla
reside o meu apelo a vida.
sonho baixo para que os pássaros não invejem
a altura de meus devaneios
e perto da terra, ao lado do lodo,
edifico minha casa
compreendo meu lugar ao lado das coisas mortas
como sendo eu mesmo matéria semelhante
ao lado da sepultura florida de meus antepassados
derramo água que verte do sangue
como uma oferenda muda aos mortos que tanto falam
O caminho da matéria morta é um enigma de luz
da esfinge até a banalidade do meu entorno:
em tudo quanto existe parece que Deus respira
como origem, fonte, seio e fim.
ser ou não ser? eis a questão que norteia
o vôo de minha poesia...
nas ilustrações da natureza inanimada
é a pedra quem recebe as inscrições naturais
o poeta, o mais antigo dos paleólogos
escava o terreno da imaginação ativa
pedra, terra, lodo, árvore, homem
derivativos de uma única substância
quem já teve a sensação de se sentir em casa em meio a Natureza?
nas lendas, nos mitos, os elementos nos falam
sobre resquícios de uma psicologia humana
e as vozes, que ecoam da terra
nos alcançam através dos sonhos.

quinta-feira, 12 de janeiro de 2023

Seria a depressão uma nova luz no horizonte?

Morrer não é um problema. A morte física é o encerramento de um ciclo biológico. Qual seja o nosso destino, a consciência, a que tudo indica, adormece, se transmuta, não mais é. Morrer verdadeiramente implica a renúncia de nossos sonhos, nossas aspirações, nossos objetivos. Em outras palavras, morrer verdadeiramente significa esperar passivamente pela morte física. Quantos de nós não estamos mortos, ainda que respirando?

Ouso dizer que não existe dor maior que viver uma vida nula. Uma vida desprovida de sentido. Nesse estado, a razão se volta contra o homem como uma arma letal. Ela impulsiona os pensamentos doentis, lhes confere força, legitimidade. Não devemos legitimar aquilo que pensamos quando estamos distantes de nós mesmos. Se não disciplinarmos nossa mente e corpo para lidar com as tempestades da vida, o sofrimento é eterno - continuaremos a velejar num mar revolto, esperançosos de que, eventualmente, o barco afunde de vez.

Sente-se, não sem frequência, o desejo de que ele toque o fundo do vasto oceano. Como se alcançar o abismo fosse uma manobra desesperada por uma profundidade esquecida. Que o barco seja levado pela tempestade, e com ele, tudo o mais – o mar, a embarcação, os tripulantes. Dormir e não mais acordar – um sono sem sonhos...seria esse o quadro a que chamamos ‘morte’?

Para atribuir um sentido profundo à nossa existência é preciso que resgatemos a criança que habita em nós. Porque quando crianças a nossa mente ainda não se identificou com nenhum aspecto de nós mesmos – somos livre para sermos o que quisermos. A imaginação, o descaso com a opinião alheia, a liberdade de criação de novos horizontes possíveis...tudo isso é sublimado pelas exigências de uma vida cotidiana.

Todavia, na medida em que envelhecemos, esquecemos. Parece mesmo que temos que ‘ser’ uma ‘coisa só’ – atribuir a nós um título, uma profissão, um meio de ‘ganhar a vida’. A identificação com esses títulos muitas vezes se traduz num esquecimento, socialmente administrado, de nossas diferentes habilidades. A memória parece, portanto, ter um papel fundamental na construção de nossa felicidade. Tanto é assim que um dos sintomas mais comuns àqueles que sofrem de depressão é o esquecimento gradativo de suas próprias potencialidades emergentes. Esquecer a si é consequência direta de um olhar desesperançoso. Esquecer a si mesmo é a verdadeira morte do homem - que absolutamente nada é em si, além daquilo que faz de si.


A ideia de ‘conquistar nosso espaço’ implica que devemos antes nos firmar social e individualmente como ‘x’ e exercer a função ‘x’. Somente então teremos ‘conquistado’ o nosso lugar. Porque é uma competição, a existência em meio aos demais supõe competir com os demais. Em outras palavras, existir em sociedade implica estabelecer uma relação de poder marcada pela suposta ‘superioridade’ de capacidade de uns em relação aos outros. Apenas por meio do trabalho pode o homem sentir-se útil. Sentir-se útil – ou inútil – eis o início da ascensão e declínio do homem e da sua capacidade de sonhar.

sexta-feira, 16 de setembro de 2022

 Há em mim

um reflexo crepuscular de luz mortiça

uma nebulosidade acentuada

uma morosidade velada

.

.

.

eis me aqui - partido

nessa casa que me abriga e me devora

eis me aqui - cindido

lembrando a calma crepuscular da Aurora

e entre as escolhas, me demoro

insípido, difuso, irreal

.

.

.

Amar é abandonar a si mesmo

nos olhos infinitos da eternidade

quinta-feira, 4 de agosto de 2022

Se existimos neste enigma, estamos necessariamente ligados a ele. Como seres pequenos, usamos de nossa razão para construir sistemas, e utilizamos esses sistemas para caminhar sobre a vida. E o que a natureza nos ensinou até então? Que somos feitos daquilo que é feito as estrelas, os milharais, os rios e o interior de uma borboleta. O carbono, o ferro, a água, o oxigênio, todos esses elementos estão presentes em nossa composição biológica, e estão presentes também no vasto cosmos e nas profundezas do mundo. Nos ensinou, portanto, que somos o agregado de elementos químicos orgânicos e inorgânicos, interações biológicas regidas por processos colaborativos.

Somos filhos dos céus e estamos entre o vazio, a luz e a matéria. Quando morremos nos integramos à terra, que é a nossa morada, e damos continuidade ao ciclo eterno do início e fim da matéria, composição e decomposição energética. Ao cessarmos não carregamos nada conosco, e deixamos apenas sementes no coração de quem amamos. Não há um único ser que exista na teia da vida cuja existência não afete as demais. E qual seria meu propósito senão o de afetar positivamente o máximo de vidas possíveis? Aprender a escutar a natureza, que é mãe de todos nós. Atentar-se à sua mensagem. Compreender a importância de persistir no caminho: se a vida, em si, é colaborativa, por qual razão tomamos o rumo diverso?

Eu amei a ti: esse amor ainda existe.
Ainda não se extinguiu em minha alma.
Amei como uma criança.
E na maioridade dei-me conta disso:

Não falo do Amor como uma espécie de cobrança
tampouco lhe confesso na esperança de uma união
pretendo somente cantar, embuído da mais terna sinceridade
a profundidade daquilo que sinto;

Não quero entristecer-te de nenhuma forma.
Não pretendo trazer lágrima aos teus olhos.
Quero que teu coração repouse em paz
Na declaração silenciosa que traço.

Estou feliz. Estou resoluto.
E não saberia dizer o quanto de ti há nisso tudo.
Mas sei que neste poema há tudo de ti.
Queria que você, de todo, levasse isto:

Saber que te amei - e amo, silenciosamente, sem esperança.
Te amarei silenciosamente enquanto houver amanhã
pois não deixamos de amar aquilo que verdadeiramente amamos...

E, ainda que de vez em quando confuso,
de vez em quando com ciúmes
de vez em quando azul

Ainda assim,
continuarei a te amar...

Por que a vida é breve Pita...

E a paixão...
mais breve ainda.