sexta-feira, 16 de setembro de 2022

 Há em mim

um reflexo crepuscular de luz mortiça

uma nebulosidade acentuada

uma morosidade velada

.

.

.

eis me aqui - partido

nessa casa que me abriga e me devora

eis me aqui - cindido

lembrando a calma crepuscular da Aurora

e entre as escolhas, me demoro

insípido, difuso, irreal

.

.

.

Amar é abandonar a si mesmo

nos olhos infinitos da eternidade

quinta-feira, 4 de agosto de 2022

Se existimos neste enigma, estamos necessariamente ligados a ele. Como seres pequenos, usamos de nossa razão para construir sistemas, e utilizamos esses sistemas para caminhar sobre a vida. E o que a natureza nos ensinou até então? Que somos feitos daquilo que é feito as estrelas, os milharais, os rios e o interior de uma borboleta. O carbono, o ferro, a água, o oxigênio, todos esses elementos estão presentes em nossa composição biológica, e estão presentes também no vasto cosmos e nas profundezas do mundo. Nos ensinou, portanto, que somos o agregado de elementos químicos orgânicos e inorgânicos, interações biológicas regidas por processos colaborativos.

Somos filhos dos céus e estamos entre o vazio, a luz e a matéria. Quando morremos nos integramos à terra, que é a nossa morada, e damos continuidade ao ciclo eterno do início e fim da matéria, composição e decomposição energética. Ao cessarmos não carregamos nada conosco, e deixamos apenas sementes no coração de quem amamos. Não há um único ser que exista na teia da vida cuja existência não afete as demais. E qual seria meu propósito senão o de afetar positivamente o máximo de vidas possíveis? Aprender a escutar a natureza, que é mãe de todos nós. Atentar-se à sua mensagem. Compreender a importância de persistir no caminho: se a vida, em si, é colaborativa, por qual razão tomamos o rumo diverso?

Eu amei a ti: esse amor ainda existe.
Ainda não se extinguiu em minha alma.
Amei como uma criança.
E na maioridade dei-me conta disso:

Não falo do Amor como uma espécie de cobrança
tampouco lhe confesso na esperança de uma união
pretendo somente cantar, embuído da mais terna sinceridade
a profundidade daquilo que sinto;

Não quero entristecer-te de nenhuma forma.
Não pretendo trazer lágrima aos teus olhos.
Quero que teu coração repouse em paz
Na declaração silenciosa que traço.

Estou feliz. Estou resoluto.
E não saberia dizer o quanto de ti há nisso tudo.
Mas sei que neste poema há tudo de ti.
Queria que você, de todo, levasse isto:

Saber que te amei - e amo, silenciosamente, sem esperança.
Te amarei silenciosamente enquanto houver amanhã
pois não deixamos de amar aquilo que verdadeiramente amamos...

E, ainda que de vez em quando confuso,
de vez em quando com ciúmes
de vez em quando azul

Ainda assim,
continuarei a te amar...

Por que a vida é breve Pita...

E a paixão...
mais breve ainda.                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                    

quinta-feira, 9 de junho de 2022

Deixemos que o coração nos mostre o caminho

O poeta navega em direção a Verdade
em teus versos de inquietude.

E da janela de teu quarto, amiúde,
ele sente uma certa comoção.

Mas alçar o sentido do inexprimível? 
Quanta pretensão!

Como o fazê-lo
se as palavras não passam
de mera falsificação?

É que o poeta as vezes se esquece,
que a Verdade é como uma prece,
que escutamos com o coração.

terça-feira, 28 de setembro de 2021

28 09

 A singularidade de nossas experiências marcam com clareza o abismo que existe entre o pensar e o falar.

Enquanto falo, falsifico o que é; enquanto calo, verifico o que está.

Então reside aqui, no poema, o verdadeiro acesso ao que é.

A tarefa é a de saber quando falar e quando calar. Quando ouvir é mais importante que dizer.

Tornar-se "Homem" significa tornar-se capaz de decidir sobre o próprio destino.

É a maioridade Kantiana. A saída do homem de sua menoridade, da qual ele mesmo é responsável.

E como realizar esse movimento sem que antes abandonemos o que nos torna infantis?

O abandono pressupõe a aquisição de novos hábitos, novas histórias capazes de criar outros destinos.

Na senda do destino, é preciso acreditar que apesar da tortuosidade de nosso caminho ele é o nosso caminho. 

Que é precisamente por ser nosso que devemos segui-lo com felicidade.

Aceitar nosso destino.

Aceitar as dores do tempo. Do crescimento, dos processos. Afinal, a vida sempre foi a mesma, somos nós quem mudamos.

A todo tempo mudamos, e o forma que assumimos no decorrer do tempo são o reflexo daquilo que fazemos no agora.






sexta-feira, 10 de setembro de 2021

28 de março de 2020

O bem mais precioso que possuímos é a vida. A verdadeira face do Covid-19 revela-se: são inúmeros países infectados em uma velocidade assombrosa, medidas de contenção do vírus antecipadamente instauradas e medidas de assistência à população, sobretudo aos trabalhadores autônomos e informais, decretadas. No Brasil, estamos caminhando contra a maré de uma lógica selvagem, defendendo (por incrível que pareça) o óbvio, a fim de resguardar a saúde e o bem-estar daqueles que amamos e dependemos. Isso tudo porque não temos uma liderança. O que temos, senhores, é um apelo ao caos. Não percebem que negar o vírus é fomentar seu crescimento? Não percebem que os discursos de nosso presidente servirão para intensificar o número de infectados? A economia vai sofrer com a crise. É inevitável. Mas escolher se ela vai levar (além de sua renda mensal) um de seus familiares, cabe a você.


Quanto vale o seu dinheiro quando o sistema de saúde colapsar pela falta de leitos e equipamentos, quando aqueles que você ama derem o último suspiro rouco, agonizante, abafado? Perceberá então que "a gripezinha" se tornou sua prioridade, e que a vida dos que você ama nada valem se eles não estiverem mais entre nós.

A arte como sublimação

 

Wittgenstein também leu Schopenhauer

Wittgenstein assume, com relação a (im)possibilidade da coisa-em-si (noumenon) ser objeto de conhecimento científico: 'I am aware of the complete unclarity of all these sentences' p.25. (...) ‘There are, indeed, things that cannot be put into words. They make themselves manifest. They are what is mystical¹.’ p.26

O curioso é que o filósofo austríaco adota, em referência ao assunto, a frase Latina usada por Espinosa: 'sup specie aertenitatis²'

Mais curioso ainda é notar que o 'cavaleiro solitário' havia, anos antes, aludido à  mesma frase, em sentido semelhante: "Também nela pensava Espinosa ao escrever: mens aeterna est, quatenus res sub aeternitatis specie concipit³' (Ética V, prop. 31, schol.) (Mundo como Vontade e Representação, Cap. III, p.30.)

Para ambos os autores é possível, a partir da contemplação artística, intuir a essência das coisas, i.e, as ideias eternas, mediante o esquecimento de si, o 'sublimar-se' a si mesmo como indivíduo.

O 'homem dos evangelhos' e o 'cavaleiro solitário', com divergências marcantes em seu pensamento e vida, chegaram às mesmas conclusões em suas investigações ontológicas: o prazer estético, que corresponde ao conhecimento intuitivo, transcende, i.e, se situa além dos limites do conhecimento científico; enquanto atemporal, por isso mesmo eterno, liberto de todas as relações fenomênicas que regem o mundo natural, ele é capaz de contemplar os objetos 'sup species aeternitatis'; por outro lado, a percepção a serviço da utilidade, revestida sob o manto da razão e da ciência, é, necessariamente, temporal, inevitavelmente agrilhoada aos objetos e suas relações.

¹ Eu estou ciente da completa falta de clareza de todas essas sentenças. Existem, de fato, coisas que não podem ser postas em palavras. Elas fazem a si mesmas manifestas. Elas são o que é místico.

² Sob a forma da eternidade.

³ O espírito é eterno enquanto apreende as coisas do ponto de vista da eternidade.