quinta-feira, 10 de dezembro de 2020

TAREFA

A tarefa que nos impõe a vida
é a de abraçar o vento
semear o invisivel
e compor
no traço do tempo
linhas que se cruzam pela eternidade

Caso contrário adoecemos
paralisados em nossas fortalezas
de certezas duvidosas
mergulhados em memórias
no excesso do passado

e quando notamos, 
estamos alheios a nós
despidos de sonhos
prostrados nas horas cinzas
renunciando o futuro
a renovação

segunda-feira, 7 de dezembro de 2020

domingo, 5 de julho de 2020

Anoitece

Anoitece
e resquícios de luz clareiam memórias
paisagens nebulosas no divagar do tempo
espaço de lembranças do amor

 Anoitece
te vejo no tumultuar de corpos afora
 parece de verdade que os edifícios murmuram teu nome
e as esquinas proferem aromas
daquela noite que não acabou

quarta-feira, 10 de junho de 2020

reveste teus sonhos
com o manto do acreditar
desperta teu fogo
com faíscas de paixão
vives, intensamente,
pois a morte, meus amigos,
está a dois passos de distância
e nunca se sabe quando é cedo
ou tarde demais
para recomeçar
Um retrato bem angulado
pode dissimular a verdade
mas o que realmente acontece dentro de nosso peito
isso - as redes sociais não mostram.

O que acontece conosco quando deitamos para dormir.
Quando estamos aflitos, ansiosos, nervosos, com medo.
Quando somos afinal humanos - isso elas omitem.

De tempos em tempos venho para cá
observar um pouco da vida de meus conhecidos
e os que aparentemente estão amordaçados de felicidade
parecem no fundo querer esconder algo...

Até que ponto é saudável ser bombardeado
por status forjados pela pretensão da invulnerabilidade
numa sociedade tão miserável e doentia
e continuar sentindo-se cada vez mais traído
pelo perpétuo sentimento de angústia...

É preciso saber delimitar o que é real
e o que é aparente
entre fotos, postagens, discursos...
por que afinal de contas de que vale um sorriso instantâneo
quando não se consegue mais sorrir naturalmente?

De que vale a beleza da natureza se ela só tem valor se for postada no Instagram?
A vida foi suprimida pela tecnologia. De tal modo que, hoje, as pessoas sentem necessidade em mostrar às outras o que estão fazendo - o que no fundo, talvez, seja uma tentativa de mostrar a si mesmo - que nada do que estão fazendo é verdadeiramente aquilo que elas querem fazer...

Buscando por um sentido eu busco a aprovação desse sentido no olhar do outro, que é o meu espelho. Mas essa fuga de mim mesmo só gera mais angústia, e aumenta gradativamente a minha necessidade pela aprovação de terceiros. Minha vida acaba se resumindo ao que pensam de mim, ao que falam de mim, ao que eu aparento ser para o outro. O Ser, em seu sentido último, como aquilo que me constitui e me move, é ofuscado pelos distintos modos de Ser que me apresentam, e o ritmo desse mundo maluco, que me exige que eu me torne algo - de preferencia que tenha sucesso - apenas contribui para me deixar mais aflito quanto ao que verdadeiramente sou.

Faz sentido?
Não é de hoje que os tiranos revestem-se com o manto da religião para ludibriar seus servos.

O plano de governo do recém presidente da República Jair Bolsonaro apresenta, já em sua capa, uma passagem bíblica:

"Conheceis a verdade e a verdade vos libertará." João 8:32

Na mitologia grega, Salmoneu, rei da Élida, era filho de Éolo e irmão de Sísifo. Tentou igualar-se a Zeus, imitando seus raios. Quis que seus súditos lhe atribuíssem honras divinas e oferecessem sacrifícios. Foi atirado no inferno por Zeus.

Enquanto no medievo ainda se podia crer que houvesse um castigo no além, àqueles que agissem de forma má, hoje a dissolução das certezas religiosas encerra em nós a possibilidade do castigo eterno, jogando-nos de bruços sobre as injustiças do mundo carnal.

Mas ainda há tempo. Sempre há. Enquanto estivermos vivos, seremos a mentira que nossos magistrados não conhecem: o valor da vida e da dignidade humana.