quarta-feira, 10 de junho de 2020

reveste teus sonhos
com o manto do acreditar
desperta teu fogo
com faíscas de paixão
vives, intensamente,
pois a morte, meus amigos,
está a dois passos de distância
e nunca se sabe quando é cedo
ou tarde demais
para recomeçar
Um retrato bem angulado
pode dissimular a verdade
mas o que realmente acontece dentro de nosso peito
isso - as redes sociais não mostram.

O que acontece conosco quando deitamos para dormir.
Quando estamos aflitos, ansiosos, nervosos, com medo.
Quando somos afinal humanos - isso elas omitem.

De tempos em tempos venho para cá
observar um pouco da vida de meus conhecidos
e os que aparentemente estão amordaçados de felicidade
parecem no fundo querer esconder algo...

Até que ponto é saudável ser bombardeado
por status forjados pela pretensão da invulnerabilidade
numa sociedade tão miserável e doentia
e continuar sentindo-se cada vez mais traído
pelo perpétuo sentimento de angústia...

É preciso saber delimitar o que é real
e o que é aparente
entre fotos, postagens, discursos...
por que afinal de contas de que vale um sorriso instantâneo
quando não se consegue mais sorrir naturalmente?

De que vale a beleza da natureza se ela só tem valor se for postada no Instagram?
A vida foi suprimida pela tecnologia. De tal modo que, hoje, as pessoas sentem necessidade em mostrar às outras o que estão fazendo - o que no fundo, talvez, seja uma tentativa de mostrar a si mesmo - que nada do que estão fazendo é verdadeiramente aquilo que elas querem fazer...

Buscando por um sentido eu busco a aprovação desse sentido no olhar do outro, que é o meu espelho. Mas essa fuga de mim mesmo só gera mais angústia, e aumenta gradativamente a minha necessidade pela aprovação de terceiros. Minha vida acaba se resumindo ao que pensam de mim, ao que falam de mim, ao que eu aparento ser para o outro. O Ser, em seu sentido último, como aquilo que me constitui e me move, é ofuscado pelos distintos modos de Ser que me apresentam, e o ritmo desse mundo maluco, que me exige que eu me torne algo - de preferencia que tenha sucesso - apenas contribui para me deixar mais aflito quanto ao que verdadeiramente sou.

Faz sentido?
Não é de hoje que os tiranos revestem-se com o manto da religião para ludibriar seus servos.

O plano de governo do recém presidente da República Jair Bolsonaro apresenta, já em sua capa, uma passagem bíblica:

"Conheceis a verdade e a verdade vos libertará." João 8:32

Na mitologia grega, Salmoneu, rei da Élida, era filho de Éolo e irmão de Sísifo. Tentou igualar-se a Zeus, imitando seus raios. Quis que seus súditos lhe atribuíssem honras divinas e oferecessem sacrifícios. Foi atirado no inferno por Zeus.

Enquanto no medievo ainda se podia crer que houvesse um castigo no além, àqueles que agissem de forma má, hoje a dissolução das certezas religiosas encerra em nós a possibilidade do castigo eterno, jogando-nos de bruços sobre as injustiças do mundo carnal.

Mas ainda há tempo. Sempre há. Enquanto estivermos vivos, seremos a mentira que nossos magistrados não conhecem: o valor da vida e da dignidade humana.
"Os seres humanos passam tanto tempo acumulando, pisoteando, negando a outras pessoas. E, no entanto, quem são os que nos inspiram mesmo depois de mortos? Os que serviram aos outros, e não a si mesmos."

Wangari Maathai

Todo animal é mágico

Eu tenho um amigo que jamais irei esquecer. O nome dele é Zé. É um vira-lata garboso, preto brilhante, dorso arqueado, pernas altas, olhar carinhoso. Eu o adotei despretensiosamente, sob certa pressão gerada pela carência que nos assalta quando estamos distante e nos sentido só. Quantos ensinamentos o Zé me passou, durante esse tempo em que vivemos juntos. Afirmo de certo que a responsabilidade por uma vida é uma atividade que nos modifica profundamente. Hoje o Zé tem em média trinta anos, mas continua, apesar dos indícios de sua maturidade, sendo uma criança boba que faz festa por tudo. Protetor, zela pela casa e pelos seus integrantes, como um cão de guarda treinado. Nunca atacou ninguém e, quando o faz, rosna, apenas para alertar de que os intentos já foram decifrados. O zé é assim, ele sabe o que voce é, antes mesmo da chegada. Me recuso a acreditar que um dia o Zé me deixará. Um dia, quando eu amanhecer sem ele ao meu lado, não chorarei. Zé nunca morrerá.

Dizem que os animais são irracionais. Eu vou mais além. Animais pensam, sim, e também sentem e, ainda por cima, falam, cada espécia sua linguagem. E até cantam, por pura alegria de viver, mais melodiosos e afinados que muita voz humana.

Eu amo muito meu amigo.
As vezes existe apenas a espera.
E da espera inferimos o corte.
Preciso, etéreo, imaginário.
O corte que sangra mas não mancha.
A mancha que escorre mas não pinga.
A gota que cai mas não absorve.

Pendemos, então
através do que criamos e do que se consome
malabaristas manejando intentos
corações machucados passeando
pela calda das constelações

E assim nos protegemos
no abrigo de outros corpos buscando aquele corpo
envoltos, como um caracol, pela casca da resiliência
suportamos a pressão, como uma ostra
e geramos uma pérola em nosso ventre machucado

A poesia urge como um grito mudo
do fundo de nossas entranhas, desacreditadas
e pela palavra projeta-se luz
nossos dias enfim tornam-se mais claros

As vezes existe apenas a espera.
E não há muito o que fazer senão abraçá-la
amá-la, contemplá-la, até que não se faça mais
Até que a espera se torne vontade
e a vontade, antes escrava da posse
torne-se Amor.