Se eu desaparecesse agora
haveria alguém a lamentar minha ausencia?
e se passassem dias, meses, anos..
insistiriam ainda em me lembrar?
Se eu não tivesse medo
haveria de escrever como o faço?
ou seria, apenas, como a árvore
que faz a que veio e não perde tempo com lamúrias...
As vezes basta ser.
Mas as vezes ser somente não basta...
E se eu não sentisse dor
apreciaria o sabor do café pela manhã?
olharia para o céu -
nada mais que constelações distantes..
E se eu tivesse todas as respostas do mundo
ainda assim acordaria com aquele estranho sentimento
que me paralisa frente a uma flor, ou a um gato qualquer.
Me pergunto com frequência
se na vida há algum sentido:
força que impulsiona o ato
a vencer o medo, o receio de ser livre..
Então me vejo diante de um sonho
naturalmente fugidio, enganosamente tátil..
e dentro dele, vez ou outra, sinto-me vago
inutilmente real..
impossivelmente certo.
segunda-feira, 22 de agosto de 2016
Não sei
Se a vida é curta
ou longa demais para nós.
Mas sei que nada do que vivemos
tem sentido,
se não tocarmos os corações das pessoas.
Muitas vezes basta ser:
colo que acolhe
braço que envolve
palavra que conforta
silêncio que respeita
alegria que contagia
lágrima que corre
olhar que sacia
amor que promove.
E isso não é coisa de outro mundo
é o que dá sentido à vida.
É o que faz com que ela
não seja nem curta,
nem longa demais,
mas que seja intensa
verdadeira e pura
enquanto durar.
Cora Coralina
Se a vida é curta
ou longa demais para nós.
Mas sei que nada do que vivemos
tem sentido,
se não tocarmos os corações das pessoas.
Muitas vezes basta ser:
colo que acolhe
braço que envolve
palavra que conforta
silêncio que respeita
alegria que contagia
lágrima que corre
olhar que sacia
amor que promove.
E isso não é coisa de outro mundo
é o que dá sentido à vida.
É o que faz com que ela
não seja nem curta,
nem longa demais,
mas que seja intensa
verdadeira e pura
enquanto durar.
Cora Coralina
segunda-feira, 25 de julho de 2016
Uma vela para Dario
Dario vem apressado, guarda-chuva no braço esquerdo. Assim que dobra a esquina, diminui o passo até parar, encosta-se na parede. Por ela escorrega, senta-se na calçada, ainda úmida de chuva. Descansa na pedra o cachimbo.
Dois ou três passantes à sua volta indagam se não está bem. Dario abre a boca, move os lábios, não se ouve resposta. O senhor gordo, de branco, diz que deve sofrer de ataque.
Ele reclina-se mais um pouco, estendido na calçada, e o cachimbo apagou. O rapaz de bigode pede aos outros se afastem e o deixem respirar. Abre-lhe o paletó, o colarinho, a gravata e a cinta. Quando lhe tiram os sapatos, Dario rouqueja feio, bolhas de espuma surgem no canto da boca.
Cada passo que chega ergue-se na ponta dos pés, não o pode ver. Os moradores da rua conversam de uma porta a outra, as crianças de pijama acodem à janela. O senhor gordo repete que Dario sentou-se na calçada, soprando a fumaça do cachimbo, encostava o guarda-chuva na parede. Mas não se vê guarda-chuva ou cachimbo ao seu lado.
A velhinha de cabeça grisalha grita que ele está morrendo. Um grupo o arrasta para o táxi da esquina. Já no carro a metade do corpo, protesta o motorista: quem pagará a corrida? Concordam chamar a ambulância. Dario conduzido de volta e recostado à parede - não tem os sapatos nem o alfinete de pérola na gravata.
Alguém informa da farmácia na outra rua. Não carregam Dario além da esquina; a farmácia no fim do quarteirão e, além do mais, muito peso. É largado na porta de uma peixaria. Enxame de moscas lhe cobrem o rosto, sem que faça um gesto para espantá-las.
Ocupado o café próximo pelas pessoas que apreciam o incidente e, agora, comendo e bebendo, gozam as delícias da noite. Dario em sossego e torto no degrau da peixaria, sem o relógio de pulso.
Um terceiro sugere lhe examinem os papéis, retirados - com vários objetos - de seus bolsos e alinhados sobre a camisa branca. Ficam sabendo do nome, idade, sinal de nascença. O endereço na carteira é de outra cidade.
Registra-se a correria de uns duzentos curiosos que, a essa hora, ocupam toda a rua e as calçadas: é a polícia. O carro negro investe a multidão. Várias pessoas tropeçam no corpo de Dario, pisoteado dezessete vezes.
O guarda aproxima-se do cadáver, não pode identificá-lo - os bolsos vazios. Rsta na mão esquerda a aliança de ouro, que ele próprio - quando vivo - só destacava molhando no sabonete. A polícia decide chamar o rabecão.
A última boca repete - Ele morreu, ele morreu. E a gente começa a se dispersar. Dario levou duas horas para morrer , ninguém acreditava estivesse no fim. Agora, aos que alcançam vê-lo, todo o ar de um defunto.
Um senhor piedoso dobra o paletó de Dario para lhe apoiar a cabeça. Cruza as mãos no peito. Não consegue fechar olho nem boca, onde a espuma sumiu. Apenas um homem morto e a multidão se espalha, as mesas do café ficam vazias. Na janela alguns moradores com almofadas para descansar os cotovelos.
Um menino de cor e descalço vem com uma vela, que acende ao lado do cadáver. Parece morto há muitos anos, quase o retrato de um morto desbotado pela chuva.
Fecham-se uma a uma as janelas. Três horas depois, lá está Dario à espera do rabecão. A cabeça agora na pedra, sem o paletó. E o dedo sem a aliança. O toco de vela apaga-se às primeiras gotas da chuva, que volta a cair.
Dalton Trevisan
Dois ou três passantes à sua volta indagam se não está bem. Dario abre a boca, move os lábios, não se ouve resposta. O senhor gordo, de branco, diz que deve sofrer de ataque.
Ele reclina-se mais um pouco, estendido na calçada, e o cachimbo apagou. O rapaz de bigode pede aos outros se afastem e o deixem respirar. Abre-lhe o paletó, o colarinho, a gravata e a cinta. Quando lhe tiram os sapatos, Dario rouqueja feio, bolhas de espuma surgem no canto da boca.
Cada passo que chega ergue-se na ponta dos pés, não o pode ver. Os moradores da rua conversam de uma porta a outra, as crianças de pijama acodem à janela. O senhor gordo repete que Dario sentou-se na calçada, soprando a fumaça do cachimbo, encostava o guarda-chuva na parede. Mas não se vê guarda-chuva ou cachimbo ao seu lado.
A velhinha de cabeça grisalha grita que ele está morrendo. Um grupo o arrasta para o táxi da esquina. Já no carro a metade do corpo, protesta o motorista: quem pagará a corrida? Concordam chamar a ambulância. Dario conduzido de volta e recostado à parede - não tem os sapatos nem o alfinete de pérola na gravata.
Alguém informa da farmácia na outra rua. Não carregam Dario além da esquina; a farmácia no fim do quarteirão e, além do mais, muito peso. É largado na porta de uma peixaria. Enxame de moscas lhe cobrem o rosto, sem que faça um gesto para espantá-las.
Ocupado o café próximo pelas pessoas que apreciam o incidente e, agora, comendo e bebendo, gozam as delícias da noite. Dario em sossego e torto no degrau da peixaria, sem o relógio de pulso.
Um terceiro sugere lhe examinem os papéis, retirados - com vários objetos - de seus bolsos e alinhados sobre a camisa branca. Ficam sabendo do nome, idade, sinal de nascença. O endereço na carteira é de outra cidade.
Registra-se a correria de uns duzentos curiosos que, a essa hora, ocupam toda a rua e as calçadas: é a polícia. O carro negro investe a multidão. Várias pessoas tropeçam no corpo de Dario, pisoteado dezessete vezes.
O guarda aproxima-se do cadáver, não pode identificá-lo - os bolsos vazios. Rsta na mão esquerda a aliança de ouro, que ele próprio - quando vivo - só destacava molhando no sabonete. A polícia decide chamar o rabecão.
A última boca repete - Ele morreu, ele morreu. E a gente começa a se dispersar. Dario levou duas horas para morrer , ninguém acreditava estivesse no fim. Agora, aos que alcançam vê-lo, todo o ar de um defunto.
Um senhor piedoso dobra o paletó de Dario para lhe apoiar a cabeça. Cruza as mãos no peito. Não consegue fechar olho nem boca, onde a espuma sumiu. Apenas um homem morto e a multidão se espalha, as mesas do café ficam vazias. Na janela alguns moradores com almofadas para descansar os cotovelos.
Um menino de cor e descalço vem com uma vela, que acende ao lado do cadáver. Parece morto há muitos anos, quase o retrato de um morto desbotado pela chuva.
Fecham-se uma a uma as janelas. Três horas depois, lá está Dario à espera do rabecão. A cabeça agora na pedra, sem o paletó. E o dedo sem a aliança. O toco de vela apaga-se às primeiras gotas da chuva, que volta a cair.
Dalton Trevisan
terça-feira, 3 de maio de 2016
A ocasião de um abraço
Pela ocasião de um abraço me desfiz suavemente
entre o meu toque e o sentir agia você
silenciosa, como a lua age sobre o mar.
A princípio as horas corriam
e de quando em vez tornava a te recompor
era linda a imagem que se desenhava em meus sonhos
quando em devaneios eu me perdia dentro de você.
E então fui aprendendo lentamente
a amar e ser amado
e aprendi que estou tão além deste objetivo
quanto a estrela mais remota da galáxia mais distante.
Pois na medida em que te amava
queria que o amor fosse aquilo que eu quisesse
essa forja de troca recíproca e sincera
e este foi o meu erro.
Pois quando se ama
ama-se. E pronto!
e o que se espera do outro além do amor
não pertence ao amar, pertence a você.
entre o meu toque e o sentir agia você
silenciosa, como a lua age sobre o mar.
A princípio as horas corriam
e de quando em vez tornava a te recompor
era linda a imagem que se desenhava em meus sonhos
quando em devaneios eu me perdia dentro de você.
E então fui aprendendo lentamente
a amar e ser amado
e aprendi que estou tão além deste objetivo
quanto a estrela mais remota da galáxia mais distante.
Pois na medida em que te amava
queria que o amor fosse aquilo que eu quisesse
essa forja de troca recíproca e sincera
e este foi o meu erro.
Pois quando se ama
ama-se. E pronto!
e o que se espera do outro além do amor
não pertence ao amar, pertence a você.
sábado, 21 de novembro de 2015
esqueletos
quando terminada, penso: é isso!
está pronta a poesia!
mas quando a releio...
meu Deus!
conseguirei escrever algum dia?
está pronta a poesia!
mas quando a releio...
meu Deus!
conseguirei escrever algum dia?
Cafeteria
Adentro a cafeteria na rua da católica
invisível, como a massa vidraceira que me cerca.
ao fundo os ruídos da cidade.
pura matéria de poesia.
como de praxe
despejo impressões sobre o papel.
vizinho a mim um casal discute.
para matéria da poesia.
ele diz:
"não era isso que esperava de ti"
e lamenta, expectativo.
mas através dos olhos ela o enlaça...
não é preciso dizer nada.
ela sabe
bem sabe ela quem manda no jogo.
neste vil jogo que fazemos quando amamos
enquanto amamos e nos fazemos.
ele corre
assenta suas lamúrias
segreda seus intentos
mas através dos olhos ela o enlaça...
será que não é preciso dizer nada?
(perco o olhar)
vejo a colher de plástico
esta colher solitária e minha
uma colher entre um milhão.
uma simples colher, no entanto..
única neste poema.
seria fácil, imagino
ser uma colher ou um grão de açúcar ou
qualquer outro objeto cujo sentido
viera junto a si no mundo
(volto-me ao casal)
o silencio jocoso
a verdade dissimulada
o desapontamento arguto dos seios
que fazem juntos?
então
apoiar-se sobre os cotovelos
olhar bem ao fundo dos olhos
e não precisar dizer mais nada...
até o silêncio falar por si.
sex 20 nov 15
invisível, como a massa vidraceira que me cerca.
ao fundo os ruídos da cidade.
pura matéria de poesia.
como de praxe
despejo impressões sobre o papel.
vizinho a mim um casal discute.
para matéria da poesia.
ele diz:
"não era isso que esperava de ti"
e lamenta, expectativo.
mas através dos olhos ela o enlaça...
não é preciso dizer nada.
ela sabe
bem sabe ela quem manda no jogo.
neste vil jogo que fazemos quando amamos
enquanto amamos e nos fazemos.
ele corre
assenta suas lamúrias
segreda seus intentos
mas através dos olhos ela o enlaça...
será que não é preciso dizer nada?
(perco o olhar)
vejo a colher de plástico
esta colher solitária e minha
uma colher entre um milhão.
uma simples colher, no entanto..
única neste poema.
seria fácil, imagino
ser uma colher ou um grão de açúcar ou
qualquer outro objeto cujo sentido
viera junto a si no mundo
(volto-me ao casal)
o silencio jocoso
a verdade dissimulada
o desapontamento arguto dos seios
que fazem juntos?
então
apoiar-se sobre os cotovelos
olhar bem ao fundo dos olhos
e não precisar dizer mais nada...
até o silêncio falar por si.
sex 20 nov 15
terça-feira, 17 de novembro de 2015
Amanhã, hoje, sempre
A fim de atenuar a melancolia
me preencho de derivativos
demovo o delírio sóbrio
adormeço na derivação progressiva
da marcha
do relógio
tic
tac
tic
tac
me desfaço em nós de poesia
enquanto o desejo
em sua reencarnação radical
desperta este corpo frágil e débil
de sua condição abusivamente limitada.
tic
tac
tic
tac
escrevo:
ó palavras me insinuem o caminho para a verdade.
sejam, por si só, ladrilhos que cheguem a mim mesmo.
e cercado por essas paredes úmidas
dentro nesse nebuloso aposento
investigar a mim mesmo e ao mundo
amanhã, hoje, sempre.
me preencho de derivativos
demovo o delírio sóbrio
adormeço na derivação progressiva
da marcha
do relógio
tic
tac
tic
tac
me desfaço em nós de poesia
enquanto o desejo
em sua reencarnação radical
desperta este corpo frágil e débil
de sua condição abusivamente limitada.
tic
tac
tic
tac
escrevo:
ó palavras me insinuem o caminho para a verdade.
sejam, por si só, ladrilhos que cheguem a mim mesmo.
e cercado por essas paredes úmidas
dentro nesse nebuloso aposento
investigar a mim mesmo e ao mundo
amanhã, hoje, sempre.
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