Pele que habito.
Lugar que me demoro.
Força que me invade,
Nesse ritmo sonoro.
O mar em que existo,
E o fogo que me arde -
Ante a busca da Verdade -
Fato ou interepretação?
Será sempre (mas não somente)
pensamento
ideia criada por dentro
nas terras da imaginação?
segunda-feira, 16 de outubro de 2023
sábado, 13 de maio de 2023
tornar o amor uma casa
erguê-lo como se ergue um lugar, abrigar-se nele
entrar dentro do amor
refugiar-se em suas trincheiras como
os que vêm feridos de morte
os que de súbito entendem que viver é breve ─
mas amar é longo
torná-lo tua mão que alcança a minha
a volta a um primeiro ato
de misericórdia
o sangue marcando as ombreiras de nossas portas
tornar o amor um esconderijo de infância
uma fresta na madeira
uma luz tênue
uma ave
tornar o amor uma casa; torná-lo
uma asa
---
mar becker
em: um dos poemas da seção final de "sal", 2021/22
Depressão
Esse excesso de sentir
me consome
eu não me pertenço mais
no escuro do mundo
minha voz se esconde
um grito abafado
atravessa a noite
no espelho um vulto -
irreconhecível
uma identidade -
fragmentada
onde será que errei
se é que errei
e quando errei?
foi por amar demais
as coisas pérfidas
ou por não saber amar
as coisas simples?
foi por excesso de sentir
ou por excesso de pensar?
estou em busca de mim
nas portas do universo...
.
Eu
Eu não me pertenço mais.
domingo, 26 de fevereiro de 2023
Tempo e Memória
Ontem mesmo passava pela rua em que cresci, e
notava saudoso todas as transformações que ela sofrera ao longo desses vinte
anos. Outros muros, cores diversas, as fachadas reformadas, novos ladrilhos,
portões e calçadas; reconhecia todas as casas, e juro que podia dizer com
precisão quais foram as mudanças pelas quais cada uma passou. Nossa memória é nosso refúgio.
Gozado é notar que meu espírito avaliava tudo aquilo com certa resistência
- havia qualquer coisa de intimidador com toda aquela transformação. Como se a
mudança material das edificações simbolizasse a impermanência e transitoriedade
da própria existência - e junto a ela, uma espécie de reflexão jazia. Afinal, o que fiz durante todos esses anos?
Como se, estando eu lá atrás, na imagem que tinha da rua onde cresci,
estaria resguardado das dores emaranhadas na imagem do agora.
Como se ao permanecer inalterada a fisicalidade de certo espaço nos sentíssemos
mais próximos a quem éramos quando o frequentávamos...
Ah! Mas que loucura é se abrigar em memórias e desejar que na vida tudo
permaneça o mesmo - se a todo segundo tudo é novo, tudo se altera, tudo se
transforma...
Seria a negação da mudança, seja qual for, o grande dilema de nossas vidas?
Aceitar a morte como quem aceita a chuva - e fazer das lágrimas uma espécie de oração.
sábado, 21 de janeiro de 2023
O aroma do vento é como uma lembrança
quinta-feira, 12 de janeiro de 2023
Seria a depressão uma nova luz no horizonte?
Morrer não é um problema. A morte física é o encerramento de um ciclo biológico. Qual seja o nosso destino, a consciência, a que tudo indica, adormece, se transmuta, não mais é. Morrer verdadeiramente implica a renúncia de nossos sonhos, nossas aspirações, nossos objetivos. Em outras palavras, morrer verdadeiramente significa esperar passivamente pela morte física. Quantos de nós não estamos mortos, ainda que respirando?
Ouso dizer que não existe dor maior que viver uma vida nula. Uma vida desprovida de sentido. Nesse
estado, a razão se volta contra o homem como uma arma letal. Ela impulsiona os pensamentos
doentis, lhes confere força, legitimidade. Não devemos legitimar aquilo que
pensamos quando estamos distantes de nós mesmos. Se não disciplinarmos nossa
mente e corpo para lidar com as tempestades da vida, o sofrimento é eterno -
continuaremos a velejar num mar revolto, esperançosos de que, eventualmente, o
barco afunde de vez.
Sente-se, não sem frequência, o desejo de que ele toque o fundo do vasto
oceano. Como se alcançar o abismo fosse uma manobra desesperada por uma
profundidade esquecida. Que o barco seja levado pela tempestade, e com ele,
tudo o mais – o mar, a embarcação, os tripulantes. Dormir e não mais acordar –
um sono sem sonhos...seria esse o quadro a que chamamos ‘morte’?
Para atribuir um sentido profundo à nossa existência é preciso que resgatemos a
criança que habita em nós. Porque quando crianças a nossa mente ainda não se
identificou com nenhum aspecto de nós mesmos – somos livre para sermos o que
quisermos. A imaginação, o descaso com a opinião alheia, a liberdade de criação
de novos horizontes possíveis...tudo isso é sublimado pelas exigências de uma
vida cotidiana.
Todavia, na medida em que envelhecemos, esquecemos. Parece mesmo que temos que ‘ser’
uma ‘coisa só’ – atribuir a nós um título, uma profissão, um meio de ‘ganhar a
vida’. A identificação com esses títulos muitas vezes se traduz num
esquecimento, socialmente administrado, de nossas diferentes habilidades. A
memória parece, portanto, ter um papel fundamental na construção de nossa
felicidade. Tanto é assim que um dos sintomas mais comuns àqueles que sofrem de
depressão é o esquecimento gradativo de suas próprias potencialidades
emergentes. Esquecer a si é consequência direta de um olhar desesperançoso. Esquecer
a si mesmo é a verdadeira morte do homem - que absolutamente nada é em si, além
daquilo que faz de si.
A ideia de ‘conquistar nosso espaço’ implica que devemos antes nos firmar social
e individualmente como ‘x’ e exercer a função ‘x’. Somente então teremos ‘conquistado’
o nosso lugar. Porque é uma competição, a existência em meio aos demais supõe competir
com os demais. Em outras palavras, existir em sociedade implica estabelecer uma
relação de poder marcada pela suposta ‘superioridade’ de capacidade de uns em
relação aos outros. Apenas por meio do trabalho pode o homem sentir-se útil. Sentir-se
útil – ou inútil – eis o início da ascensão e declínio do homem e da sua
capacidade de sonhar.