sábado, 9 de setembro de 2017

Como podem os pássaros, semeadores do ar, conhecer-te tão bem?
Não é de hoje que escuto eles te chamando do lado de fora do meu quarto, inutilmente clamando teu nome em pios, um hino melancólico que parece ser dirigido a minha pessoa. É inacreditável. Que pacto terá feito tu com estes seres maravilhosos e com toda a natureza, pois que quando me ponho a regar as plantas vejo em tuas folhas marcas que remontam a tua pessoa, e lá estou eu de novo a pensar em como poderia ser diferente, quando a água cai sobre o meu pé e sou lançado novamente a terra, o vaso todo inundado, a mente ofuscada e o peito vazio. Que pacto terá feito tu com as estrelas? Pois que quando me ponho a olhar o céu não consigo pensar noutra coisa senão no desejo ardente de consumi-la por completo, até que não reste dúvidas, até que não reste fome, até que não reste nada. Além de nós.

Ferro

Sorvo minha angústia
aparato moderno

camuflo minha dor
gestos hodierno

me produzo no escuro
nada é eterno

a noite é uma sombra
e voce veste terno.

no chão
um ser se abriga
e a mão que afaga
é de ferro.

no chão
um corpo cai
e a mão que o salva
é de ferro.

na rua
o povo grita
e a resposta dada?
ferro.

o preço que cobram pela vida
é menor que o preço do terno
voce, a vida, o terno
também são de ferro?

quinta-feira, 7 de setembro de 2017

Meu coração é uma folha em branco

Não te escrevo este poema
para que lembres de mim
escrevo-te para que esqueças
esqueças que te amei imensuravelmente
e que ainda te amo.

Não te escrevo este poema
por que estou morto de saudade
escrevo pois sei que o que me espera é a ausencia
e a única forma de sanar essa dor é indo até o fim.

Não te escrevo este poema
na esperança de que um dia voce o leia
escrevo para que tu nunca o visualizes
e permanecendo oculto lhe diga o que nunca consegui...

Não te escrevo este poema...
eu apenas o publico...

pois foi voce quem o escreveu em mim.

natureza da realidade

Tu vivente de tudo que há
eu vivente daquilo que sou
trago comigo a lembrança secreta
daquilo que nos restou

Ando sozinho à sombra da rua
imaginando sua presença numa esquina qualquer
e de repente te vejo, meu coração dispara
mas espera: era uma outra mulher.

E quando te alcanço, por fim, não desejo
não desejo mais ver-te, tão somente.
pois o beijo que no fundo almejo
existe somente em minha mente

Na despedida lhe digo doído
um adeus, até logo, amigo.
no fundo eu queria levar-te comigo
no fundo eu queria levar-te comigo...


sexta-feira, 24 de março de 2017

Que magia é essa que te afoga
incauta, desmedida, afora
do tempo, de si, da dor, do agora
e te compõe em versos de inquietude?

Que corpo é esse que te aprisiona
entre o vão do desejo e da aurora
encontrarás finalmente liberdade
quando libertar-se do Eu, outrora?

Que palavras são essas que te compõe
serão súplicas de apelo ao implacável destino?
Que farás comigo, ó terra, quando em desatino
pôr-me a clamar por mais um pouquinho de amor?

Permitirás que eu volte, desfrutando
da brisa gostosa que em tuas vestes abracei
ou me dirás que nesse plano, a partir de agora,
retornarei ao menino que um dia deixei...

sexta-feira, 21 de outubro de 2016

Ei amigo,
preciso lhe dizer algumas verdades:
um dia você morrerá.
encontre-se com tua finitude.
cumprimente-a
respiras hoje como se fosse parar amanhã..
permita-se conhecer novos caminhos.
abra mão dos adornos
das máscaras habituais
dos luxos e dos lixos.
em meio a loucura,
conquiste a liberdade.
à frente da solidão
conhece-te a ti mesmo.
Voas longe!
não olhes para trás;
a terra é a tua casa.
tua casa é o teu lar
teu lar é a tua segurança,
a terra, a casa, o lar
são a sua vida.
A sua vida,
senha para outra vida.
O teu amor,
semente de luz e prosperidade.
Tenha, sempre que possível, olhar de criança..
Seja criança!
Não se esqueça de quem tu és.
Dance, pule, cante,
observe, procure, vá de encontro..
ao que beira o absurdo, o ridículo, o impossível -
seja o absurdo, o ridículo, o impossível..
o que os outros dizem
é o que eles dizem
o que voce pensa
é o que voce é.
Atente-se à natureza e à sua mensagem,
ela é velha e sábia
e mãe de todos nós.
Ouça os mais velhos,
mas
acima disso,
saiba criticá-los.
Meu amigo..olhe pro céu!
pise leve, ria alto, pense grande!
saiba por onde caminhas
mas
se não souber, ao menos,
respeite a grama que lhe acolhe.
por vezes, não penses tanto..
deixa-te levar pelo perigo
pelo momento
pelo fascínio
pela angústia
pela dor
de se ser
o que se é.
E, nessa busca infindável
Não trate de remediar o que o coração necessita
para crescer e
aprender com o tempo
as lições
que só dele pode extrair.
a vida é, de passo,
um luxo tão passageiro..
um quadro que se pinta
dia-a-dia
e se apaga,
a todo momento.
portanto viva!
e morres,
digno e solto
sem o receio de ter passado
despercebido
nessa viagem..

segunda-feira, 19 de setembro de 2016

No aguardo

No aguardo da ida, nesse mar incessante do tempo,
clamo em letras,
o que o coração não aguenta ver.
Ou cala e remanesce;
ou aguenta e ressente.

Pois é simples estar vivo.
 - e para alguns até mesmo viver -
mas para um poeta, cujas palavras são expressões da alma,
e as dores do mundo são nós presos na garganta,
a vida é tudo,
menos simples.

É fugidia, volátil
passageira, traquina
é sublime, é instante
é pura poesia...

(e a poesia meus amigos, nunca é simples).